quinta-feira, 7 de junho de 2018

Sub-notificação de casos de intoxicação por agrotóxicos em Rondônia é grave, alerta AGEVISA

Subnotificações de casos de intoxicações por agrotóxicos seguem desafiando a saúde pública em diversos municípios de Rondônia. Somente este ano ocorreram 91 casos, dos quais, dois óbitos no município de Cacoal, informou na terça-feira (5) a Agência Estadual de Vigilância em Saúde (Agevisa).
Em Rondônia, o agrotóxico é o primeiro na lista de intoxicações exógenas nas zonas urbana e rural. Da lista elaborada em pesquisa de campo pelo Centro de Referência em Saúde do Trabalhador (Cerest) também constam medicamentos, raticidas, alimentos e bebidas, veneno doméstico, produtos de uso domiciliar e químicos.
“Não é tão simples assim diminuir os impactos na saúde; a higienização de frutas e verduras, por exemplo, reduz, mas não elimina a contaminação”, alerta a coordenadora de vigilância em saúde de populações expostas a agrotóxicos na Agevisa, Rosiane Maciel Batista.
Para a coordenadora, “Ibama e Anvisa” não deveriam, em hipótese alguma, serem alijados do processo de avaliação dos agrotóxicos: “Tudo se relaciona à saúde e meio ambiente”, advertiu.

Quadros depressivos
A Política Nacional para a Prevenção e Controle do Câncer e a Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica funcionam, mas há carência de estudos esclarecedores sobre um componente delicado e ao mesmo tempo assustador, lembrou Rosiane Batista: “Precisamos esclarecer casos de tentativas de suicídio que tem apresentado maior frequência”.

Segundo ela, há estudos demonstrando que o uso contínuo de agrotóxicos pode levar a quadros depressivos, além do desenvolvimento de doenças como o câncer.
O Brasil é o maior consumidor mundial do agrotóxico glifosato, substância considerada potencialmente cancerígena pela Organização Mundial de Saúde (OMS).
“Um mal-estar, enjoo ou dor de cabeça são sintomas inespecíficos que levam a pessoa a procurar à unidade de saúde, contudo, os profissionais de saúde felizmente já têm um olhar diferenciado para a questão, da exposição a fatores ambientais”, disse.
Rondônia irá participar do Fórum Nacional de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos, um fórum permanente de discussão dos efeitos provocados pelo uso dos agrotóxicos. Em março passado, o procurador do Ministério Público do Trabalho  Pedro Serafim apresentou no Fórum Mundial da Água em Brasília, o projeto “Água Livre de Agrotóxicos:  questão de saúde pública”, visando promover o direito do trabalhador e do consumidor à água potável sem agrotóxicos.
A ação é articulada nos ramos do Ministério Público do Trabalho, sociedade civil organizada, academias,  governos, órgãos, entre outros parceiros.

Alto Alegre tem plano de vigilância
Um dos municípios prioritários no estado para a problemática na saúde dos agrotóxicos, Alto Alegre dos Parecis (13,8 mil habitantes), a 536 quilômetros de Porto Velho, na Zona da Mata, foi o único município a elaborar o Plano Municipal de Vigilância em Saúde de Populações Expostas a Agrotóxicos.
Segundo Rosiane Batista, é preciso ir além, e Rondônia fará sua parte de 1º a 3 de agosto deste ano, com o Seminário Estadual sobre Impactos dos Agrotóxicos na Saúde Humana que tem por objetivo fomentar as discussões na área. Lembrou que o estado tem seu plano aprovado desde 2013.
Apoiados pela Agevisa, Cerest e municípios têm feito palestras para agricultores, alertando a respeito dos riscos à saúde. Destacou o papel do Cerest de Cacoal, que realiza acompanhamento dos trabalhadores expostas, verificando a resistência das pessoas ao uso dos equipamentos de proteção individual (EPI).
“De fato, esses equipamentos são quentes e não condizem com as nossas condições climáticas, embora a norma recomende seu uso em horários onde a temperatura e o vento estão mais amenos, mais ao entardecer”, reconheceu a coordenadora.
A Coordenadoria de Segurança Alimentar e Nutricional (Cosan) na Secretaria Estadual da Assistência e Desenvolvimento Social (Seas) promove palestras e já se fez representar em diversas reuniões técnicas nas quais alertou a respeito da qualidade alimentar.
“No Restaurante Popular, por exemplo, distribuímos cartilhas e panfletos às pessoas, com boa receptividade”, disse Cleusa Firmino. A Seas faz campanha por alimentos saudáveis.
Cleusa é ativista de políticas públicas nesse setor desde o governo anterior. “Mas isso não é tudo, precisamos unir dados e esforços para melhor esclarecer o que vem acontecendo”, ela reivindicou.

(*) Municípios com ocorrência de intoxicação por agrotóxicos em 2018:
Alta Floresta d’Oeste, Alto Alegre dos Parecis, Alto Paraíso, Alvorada d’Oeste, Ariquemes, Buritis, Cacoal, Castanheiras, Cerejeiras, Colorado do Oeste, Guajará-Mirim, Jaru, Ji-Paraná, Monte Negro, Nova Brasilândia d’Oeste, Nova Mamoré, Porto Velho, Rolim de Moura, Santa Luzia d’Oeste, São Francisco do Guaporé, Urupá, Vale do Paraíso e Vilhena.

Projeto da câmara muda  nomes de produtos
Mais de 200 entidades se manifestaram contra projeto de lei que reclassifica os produtos como “fitossanitários”. Em nota, Fiocruz, Ibama, Anvisa, Ministério Público Federal, Ministério Público do Trabalho acusam: “Querem fingir que os agrotóxicos não fazem mal para a saúde humana. E fazem. São um veneno que é colocado nos pratos das nossas filhas e dos nossos filhos na mesa dos brasileiros a cada dia. Nós não vamos aceitar essa medida”.
Segundo relatório de 2015 do Cerest/Sinan, 109 trabalhadores intoxicados em Rondônia estão na faixa de 20 a 39 anos e 21 têm acima de 60. Do total, 50 não eram empregados registrados, 33 registrados, 12 aposentados, dez desempregados, oito avulsos, seis temporários, dois servidores públicos e até um empregador.

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